A luta para manter nosso bem viver


“Hoje em dia, não podemos mais saber quando as águas sobem e descem.”

Ixé Márcia Mura, sé mira sá Mura, sé rendawa sé rera Maloquinha em Nazaré no paranã Madeira. Eu sou Márcia Mura. Meu povo são os Mura, minha aldeia é Maloquinha no distrito de Nazaré no Rio Madeira, no estado de Rondônia no Brasil. A última vez que fui à Nazaré eu tinha dez anos. Era época de enchentes e eu fiquei pulando na água com meus primos. Lembro dessa viagem em que fui pescar com minha tia e ela tirava água do rio para beber; ela coava a água lamacenta em uma panela com um pano limpo. Lembro-me de quando eu tinha cinco a dez anos e ainda dava para beber água do Rio Madeira. Porém, hoje em dia, principalmente depois que as hidrelétricas causaram uma grande enchente e contaminaram o lençol freático, isso não é mais possível.

Antigamente, segundo os mais velhos, os calanguinhos desovavam apenas em determinada época do ano, quando a água não chegava até eles. Agora que começo a prestar atenção, percebo que as águas agora alcançam os ovinhos brancos do calango grudados nos pilares das casas e árvores. O pássaro que costumava cantar avisando quando a água ia subir e descer continua a cantar, mas a água sobe antes e desce, fora de seus horários habituais. Da mesma forma, a flora e a fauna, todos os sinais do meio ambiente, não indicam mais os tempos de enchentes e secas, de plantio e colheita. Hoje as barragens hidrelétricas é que determinam tudo isso.

Essas interferências no rio têm causado diversos problemas para os territórios das comunidades locais e Terras Indígenas – até as chuvas são diferentes. Assim como Nazaré, outras comunidades e aldeias ribeirinhas das margens do Rio Madeira estão sem água potável. O acesso à água é difícil durante a seca e mesmo que haja muita água na estação das chuvas, ela não é adequada para beber. A navegação fluvial também se torna mais difícil porque na época da seca o rio fica muito seco, abrindo espaço para o surgimento de praias que não existiam.

No final de setembro, fui para a cidade de Uruapeara, no estado do Amazonas, por uma antiga rota usada pelos ancestrais dos Mura. Fui buscar minha mãe, que está restaurando um castanhal que data da época da minha trisavó. Estava muito quente nas cabeceiras e até nas margens do lago, e então caiu uma forte chuva. Observando isso, perguntei à minha mãe: “Mãe não era o mês de agosto que é o tempo dos cios das onças e dos temporais?” Ela respondeu: “Costumava ser! Agora as chuvas mudaram para o mês de setembro.”

É assim que sentimos a mudança climática e experimentamos inundações, tempestades fora de época e calor, mesmo estando na cabeceira de lagos e florestas. Todos nós sabemos que isso se deve em grande parte ao impacto dos incêndios criminosos, do desmatamento e da interferência nos rios causada pelas hidrelétricas. Em geral, o território ancestral dos povos indígenas está sendo constantemente reduzido e invadido por fazendeiros, madeireiros, mineiros e incêndios; nosso território Mura está invisível nos mapas oficiais do estado.

Temos que tentar reverter esses impactos ambientais e climáticos negativos, como diz o ativista dos direitos indígenas e ambientais Ailton Krenak, e encontrar maneiras de adiar o fim do mundo. Nessa perspectiva, o coletivo Mura trabalha para fortalecer as comunidades tradicionais das margens do Rio Madeira no enfrentamento dos projetos de desenvolvimento que os governos impõem sem levar em conta as nossas vidas. O governo afirma que esses projetos vão nos trazer grandes avanços, mas na verdade, eles só nos trazem a morte para os rios, para os peixes e para todo o meio ambiente. Nossa principal ação está focada em nossa declaração Mura:

Declaramos que o município de Porto Velho é, antes de tudo, território Mura. Trabalhamos para fortalecer nossas raízes puxando os fios da memória ancestral, e lutamos pelo reconhecimento e reconstrução da memória e história indígena do Rio Madeira. Mesmo com os desafios, continuamos defendendo todo o meio ambiente do qual fazemos parte, bem como lutando para manter o nosso bem viver.

Atualmente estamos recuperando o Rio Madeira e são as mulheres que estão na frente dessa resistência. Enquanto houver um Mura neste Rio Madeira para gritar e lutar, haverá resistência Mura. Do contrário, nossa Amazônia — que é o pulmão do mundo — não vai durar muito.

 

Marcia Mura escreve em nome do coletivo Indígena Mura, formado por povos que estão recuperando o Rio Madeira. O coletivo visa fortalecer a identidade e a memória ancestral do povo Mura de Porto Velho e das comunidades ribeirinhas do Rio Madeira; promover ações com a comunidade local para o reconhecimento do “jeito indígena de ser”; participar dos movimentos indígenas regionais e nacionais de luta pelos direitos sociais e ambientais; fortalecer processos de produção criativos e tradicionais para garantir a geração de renda local; e promover ações que contribuam para a convivência no bioma Amazônia e no combate às mudanças climáticas.


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