A partir da ação local à nacional, as mulheres na Nicarágua criam resiliência climática


Destaques da história

  • As comunidades rurais da Nicarágua enfrentam insegurança alimentar e hídrica, em consequência da mudança climática que intensificou a ocorrência de tempestades mais devastadoras e secas prolongadas.
  • La Cuculmeca, parceira da FCAM, organização líder da GAGGA, está fornecendo uma plataforma para mulheres e integrantes da comunidade para informar e influenciar agentes locais, nacionais e internacionais na ação climática.
  • Com o apoio da rede GAGGA, as mulheres rurais estão desenvolvendo e implementando planos de ação resilientes ao clima com base nas necessidades de suas comunidades, em relação à água, reflorestamento e soberania alimentar.

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A imprevisibilidade do clima na Nicarágua torna difícil para as comunidades rurais terem certeza de quando semear, pois as lavouras não podem se desenvolver nem em solo muito árido nem em muito úmido. Nos últimos anos, uma sequência de furacões, deslizamentos de terra, secas e inundações tem atingido a Nicarágua, um dos países mais afetados pelas mudanças climáticas, de acordo com o Índice de Risco Climático Global Germanwatch (Germanwatch Global Climate Risk Index).  Nas montanhas do norte do país, na região produtora de café de Jinotega,  o impacto desses eventos é bem visível; fazendas de café – uma atividade que emprega um terço da população trabalhadora da Nicarágua – estão em ruínas, com arbustos arrancados, campos inundados e frutos verdes caídos em consequência  dos furacões Eta e Iota, tempestades recordes de categoria 4 que atingiram a Nicarágua em novembro passado no intervalo de duas semanas.

Uma organização comunitária em Jinotega, La Cuculmeca, está sofrendo diretamente esses impactos e respondendo a esse desafio treinando mulheres e suas comunidades no monitoramento do que está acontecendo com o clima. A organização instalou quatro estações climáticas em várias elevações para medir os níveis de precipitação de chuva e a temperatura. Com base nessas informações, os membros da comunidade podem trocar informações, criar alertas meteorológicos e fazer previsões, auxiliando as comunidades a determinar quando é melhor semear e também a compreender as mudanças climáticas locais.

Capacitar comunidades – especialmente mulheres e jovens – a participar e controlar seu próprio desenvolvimento é fundamental para La Cuculmeca, uma parceira do Fondo Centroamericano de Mujeres (FCAM), a organização líder da Global Alliance for Green and Gender Action (GAGGA). La Cuculmeca foi fundada em 1990, com o objetivo de desenvolver programas de educação de adultos com ênfase na agricultura sustentável, no departamento de Jinotega da Nicarágua. Um programa de auxílio emergencial foi adicionado às áreas de especialização de La Cuculmeca depois que o furacão Mitch, historicamente o segundo furacão mais mortal do Atlântico, atingiu a América Central em 1998.

Foto do arquivo fotográfico do Projeto La Cuculmeca: «Mulheres dinamizando a economia familiar»

Insegurança alimentar e hídrica na Nicarágua

Trinta furacões passaram pelo Oceano Atlântico no ano passado, tornando 2020 a temporada mais ativa já registrada; temperaturas superficiais excepcionalmente altas no Atlântico estão causando tempestades que são mais frequentes, bem como mais poderosas e destrutivas. Jinotega está localizada no Corredor Seco, um trecho de floresta tropical seca que vai do México ao Panamá e uma das regiões do mundo mais vulneráveis a desastres resultantes da mudança climática. A seca prolongada nos últimos anos agravou os danos causados pelo Eta e Iota, pois o solo endurecido não conseguiu absorver a chuva, aumentando as inundações. Quatro anos atrás, os efeitos do El Niño destruíram quase todas as safras de milho da Nicarágua e mais da metade de suas safras de feijão.

As mulheres e suas famílias em toda a Nicarágua estão vendo seus rios e fontes de água desaparecerem; mais de 48% da população rural do país não tem sistemas de água potável. Nessas áreas, são as mulheres que têm que administrar e garantir a disponibilidade de água em casa devido ao papel de gênero que lhes foi atribuído. As mulheres da comunidade usam água para tarefas domésticas e outros cuidados, como preparar alimentos e cuidar de doentes, tarefas que ocupam entre 5 a 8,5 horas do dia da mulher – sem contar as horas adicionais para buscar água ou esperar que o abastecimento de água seja restaurado. Apesar do papel crítico das mulheres na gestão da água, os papéis de gênero as impedem de participar da tomada de decisão sobre esses recursos.

Foto do arquivo fotográfico do Projeto La Cuculmeca: «Mulheres dinamizando a economia familiar»

Vinculando o local ao global

Em seus programas, La Cuculmeca prioriza a educação porque a vê como a base para o desenvolvimento de outros direitos econômicos, sociais e culturais, justiça social e sustentabilidade. A organização acredita que a informação dá às mulheres a segurança e a capacidade de tomarem decisões mais adequadas não apenas em relação a suas famílias, mas também em sua comunidade, para que coletivamente possa se tornar mais resiliente e adaptável. Assim, o que é feito localmente terá um impacto global, começando com as mulheres e suas famílias, a lavoura e a comunidade e, finalmente, transcendendo o município, o departamento, o país e a região.

Tendo isso em mente, La Cuculmeca se envolveu em várias plataformas locais, nacionais e internacionais relacionadas à questão da  água e do clima. Essas conexões permitem às mulheres e comunidades locais fazerem suas vozes e demandas acerca do que está acontecendo em seus territórios serem ouvidas. Em nível local, foram apresentadas propostas para os Planos Estratégicos Municipais e Planos Municipais de Investimento nas áreas de meio ambiente, segurança alimentar e participação do cidadão. Em nível nacional, o estudo de La Cuculmeca sobre “Promoção da equidade de gênero na gestão da água na comunidade”, realizado com outras organizações da Nicarágua, identificou o papel das mulheres e as lacunas de gênero na gestão da água nas comunidades em todo o país e propôs ações concretas para a integração de uma perspectiva de gênero .

Outro estudo conduzido pela La Cuculmeca com um parceiro local entrevistou famílias em 91 comunidades rurais em todo o país a respeito do acesso à água, qualidade, aceitação, participação e responsabilidade. Pesquisas anteriores em todo o país para monitoramento do acesso à água concentraram o foco amplamente na disponibilidade de infraestrutura; o estudo conjunto da La Cuculmeca serviu como um modelo para desenvolver e implementar indicadores baseados nos direitos humanos dentro ou em paralelo aos processos de monitoramento nacional, com o potencial de ajudar as partes interessadas locais em sua defesa para entenderem seus direitos à água e ao saneamento. La Cuculmeca também trabalhou com outras organizações em treinamentos para mulheres e homens a respeito de gestão comunitária da água e liderou a defesa do direito de acesso e da não privatização da água. Essa experiência gerou a apresentação de propostas de políticas nacionais.

A organização também está envolvida na Alianza Nicaragüense ante el Cambio Climático (Aliança da Nicarágua para Mudanças Climáticas, ANACC) e em um intercâmbio internacional entre jovens de todo o mundo para discutir ações climáticas conjuntas. A ANACC é uma plataforma inclusiva composta por 52 participantes com foco na mitigação e na adaptação às mudanças climáticas por meio de processos participativos e advocacy local, indo do nível local ao internacional. A ANACC influencia políticas e planos públicos tais como a Lei de Mudanças Climáticas e o Plano Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas, promove ações de adaptação nos territórios e monitora processos climáticos regionais e globais.

Foto do arquivo fotográfico do Projeto La Cuculmeca: «Mulheres dinamizando a economia familiar»

Construindo resiliência às mudanças climáticas

Com o apoio da FCAM, La Cuculmeca está implementando um projeto para aumentar a resiliência entre meninas e mulheres no enfrentamento à mudança climática em nove comunidades de Jinotega, por meio de capacitação, enfatizando o desenvolvimento pessoal e a gestão ambiental. As mulheres aprendem acerca de seus direitos ecológicos, práticas agroecológicas, como diversificação de culturas e a criação de fertilizantes orgânicos, e desenvolvem e implementam planos de ação com base nas suas necessidades e de suas comunidades.

A partir desse processo, as mulheres iniciaram negociações com diferentes departamentos públicos sobre a construção de sistemas de água potável, deram início a um processo de reflorestamento e a projetos de horta ecológica comunitária / escolar. Além disso, com o apoio do Fundo de Autonomia e Resiliência da GAGGA, 18 mulheres se tornaram mais seguras na alimentação, e conseguiram melhorar a renda de suas famílias durante a pandemia, construindo e aprendendo a cuidar de galinheiros.

Muitas das mulheres que participaram desses projetos mais tarde se identificaram como novas líderes e tomadoras de decisão respeitadas em sua vida familiar e comunitária. Por meio desse projeto, as mulheres inspiraram ainda mais outras pessoas em suas comunidades, e um pequeno grupo de promotoras ambientais espalhou seu conhecimento recém-adquirido para outras 86 mulheres. Juntas, elas formaram uma plataforma de mulheres defensoras dos direitos ambientais e podem se conectar a outras plataformas em nível local.

La Cuculmeca também recebe apoio da parceira da GAGGA, International Analog Forestry Network (IAFN), que em 2019 realizou um workshop sobre Silvicultura Analógica na comunidade de Jinotega de La Cuculmeca, uma abordagem que restaura a produtividade de terras degradadas e fornece novas fontes de alimento e renda para as comunidades. Vinte e cinco mulheres de 10 organizações em toda a Nicarágua participaram de um treinamento da IAFN com a ajuda de outra parceira da GAGGA, a Fundación Entre Mujeres e a FCAM. Duas mulheres de La Cuculmeca se tornaram facilitadoras técnicas após um processo de treinamento para aprofundar seus conhecimentos sobre técnicas de silvicultura analógica e sua implementação em um local de demonstração financiado diretamente pela IAFN. As participantes do workshop trocaram sementes tendo em vista a preservação da biodiversidade e, em consequência aumentar a soberania alimentar em suas áreas de plantio. Além disso, aprenderam a respeito de quais plantas são mais adequadas para sua área, a hora certa de plantar e técnicas de conservação da água. Agora, La Culcumeca está ensinando outras mulheres e jovens da comunidade a respeito de Silvicultura Analógica.

Colaborando em uma rede crescente de agentes locais, nacionais, regionais e internacionais, La Cuculmeca promoveu o fortalecimento das capacidades das mulheres líderes climáticas da comunidade, mas também forneceu uma plataforma para oportunizar que  suas vozes sejam ouvidas, para que as realidades e demandas das mulheres locais contribuam e influenciem a ação climática em vários níveis.

 

Foto do arquivo fotográfico do Projeto La Cuculmeca: «Mulheres dinamizando a economia familiar»


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